Etimologicamente a palavra transpessoal (trans “para além de, através” + persona “máscara, personagem”) significa para além da máscara. Ou seja, o que está para além do ego, da personalidade, das crenças, dos padrões comportamentais. O que está além da personagem com que nos confundimos e identificamos.

Tal como a inscrição gravada na entrada do templo de Delfos, construído em homenagem ao Deus Apolo, o desafio que a Psicologia Transpessoal lança é “Conhece-te a ti mesmo”. Pois é através do autoconhecimento que reencontrarás a sabedoria, que te transcenderás, resgatando a tua essência e atribuindo um significado maior à tua existência.

 

Na ânsia de adquirir o estatuto de ciência, a Psicologia renegou as suas origens, a Filosofia e a Religião, separando-se delas. Desde então, foi trilhando o seu caminho através de diversos paradigmas, sendo que o behaviorismo e a psicanálise têm sido as escolas predominantes.

Na década de 50, Abraham Maslow, inconformado com a visão reducionista veiculada pelo behaviorismo – cujo foco assentava no comportamento humano objetivo e observável e com a visão patológica, negativa e disfuncional do indivíduo preconizada pela escola psicanalítica, propõe uma nova visão psicológica, a psicologia humanista.A Psicologia Humanista, que sofreu fortes influências do existencialismo e da fenomenologia e cujos propulsores são Abraham Maslow e Carl Rogers, enfatiza as experiências internas dos seres humanos, privilegia a saúde e o bem-estar, assim como o potencial de crescimento e de autorrealização e relega no sujeito a responsabilidade de escrever a sua própria história (livre-arbítrio).

Maslow começa por defender que o comportamento e a existência humana são motivados por uma hierarquia de necessidades básicas, psicológicas e de autorrealização. Posteriormente percebeu que para além da realização pessoal, o ser humano busca por algo que o transcenda. É neste sentido que, no final dos anos 50, início dos anos 60, se dedica a estudar indivíduos que de forma espontânea, vivenciavam experiências culminantes ou transcendentes. A oração, a envolvência harmoniosa de uma música, a contemplação da natureza, momentos de encontro e amor com os outros, os processos de inspiração criativa ou de desempenho desportivo, os sonhos e até mesmo situações trágicas são alguns exemplos dessas experiências. Estas experiências demonstram a capacidade de transcendência da consciência, originando um sentimento de pertença a algo maior, que ultrapassa as capacidades de compreensão do intelecto e amiúde, provocando naqueles que as vivenciaram uma mudança no sentido das suas vidas e de si próprios. Deste modo, Maslow acabou por concluir que estas experiências transcendentes caracterizavam um estado de consciência superior, que ultrapassava o Self. A esta dimensão superior da psique humana, que conduz o ser humano em direção à transcendência, ele denominou de transpessoal.

É na continuidade da Psicologia Humanista que vemos surgir, em 1962, inicialmente pelas mãos de Maslow, a Psicologia Transpessoal. Porém, houve contributo de outros nomes, tais como Gustav Jung, Wilhelm Reich, Viktor Frankl, Ken Wilber, Stanislav Grof, Aldous Huxley e Roberto Assagioli.

A Psicologia Transpessoal é uma abordagem transdisciplinar, que estuda o Ser Humano na sua totalidade, integrando os contributos das escolas psicológicas anteriores (Behaviorismo, Psicanálise e Humanista) em conjunção com a sabedoria das grandes tradições da humanidade (Budismo, Sufismo, Hinduísmo, Taoísmo, entre outras); e de outras áreas como a física quântica, a filosofia, a antropologia, a medicina, as neurociências e a biologia. O Ser Humano já não é somente considerado nas suas dimensões corpórea, mental e emocional, mas também espiritual; havendo o reconhecimento da existência de uma dimensão superior da consciência (supraconsciência). Desta dimensão são características as experiências culminantes com perceção ampla e intuitiva da realidade, de onde brotam sentimentos de compaixão, amor e equanimidade.

A Psicologia Transpessoal reconhece que o ser humano pode experimentar e atuar sob diferentes estados de consciência e não somente no estado de vigília. Pierre Weil afirma que a consciência humana passa por vários estados e que a realidade que a pessoa percebe é diferente em cada estado de consciência no qual ela se encontre.A consciência é simultaneamente objeto e instrumento central na Psicologia Transpessoal, nomeadamente os estados modificados de consciência, permitindo uma expansão da identidade além do ego e da personalidade. Os estados modificados de consciência funcionam também como uma ferramenta para a formação de novos padrões de pensamentos, emoções e comportamentos, dado que permitem novas perceções acerca de um mesmo fenómeno e consequentemente geram novos estados emocionais favoráveis à superação de dificuldades e do sofrimento psicológico.

Quando falamos em psicoterapia, importa relembrar que a Organização Mundial de Saúde reitera o bem-estar espiritual como uma dimensão do estado de saúde, a par das dimensões corporais, psíquicas e socias. A espiritualidade é um aspeto integral da natureza humana, potencialmente promotor de melhores índices de saúde, incluindo maior longevidade e qualidade de vida, assim como menor ansiedade, depressão e suicídio.

Este relacionamento com o transcendente traduz-se também numa busca pessoal de respostas sobre o significado da vida, por exemplo, no modo como as pessoas interpretam acontecimentos traumáticos. As crenças espirituais e religiosas frequentemente proporcionam comportamentos resilientes, uma aprendizagem positiva da experiência, o amparo para a superação da dor psicológica e autoconfiança para lidar com as adversidades. As crenças e perceções de cada individuo podem fornecer ordem e compreensão a eventos dolorosos, caóticos e imprevisíveis.Na Psicologia Transpessoal, o paciente é o seu próprio terapeuta, capaz de refazer e recriar o seu mundo partindo de mudanças internas, conhecendo-se na sua inteireza, no mais sombrio e mais luminoso. E, conhecendo-se a si mesmo, conhecer o outro e o Universo que o rodeia.