A hipnose parece ser tão antiga quanto a própria humanidade. Os fenómenos hipnóticos fazem parte da vida quotidiana de todos os seres humanos. Todos nós passamos por eles várias vezes ao dia de uma forma espontânea e aleatória. A hipnose é universal.

As induções hipnóticas são tão antigas quanto a existência de civilizações. Estas práticas foram observadas na Caldeia, na Índia, na Grécia e na Roma antiga.

No Egipto existiam os “templos dos sonhos”. Sacerdotes egípcios induziam os sujeitos ao estado hipnótico, como se pode verificar em alguns papiros. Nestas civilizações antigas, magia, religião e medicina misturavam-se, feiticeiros, sacerdotes e curandeiros exerciam continuadamente essas funções.

Ao longo dos tempos, mais no oriente do que no ocidente, a pratica da hipnose vinha sendo exercida ininterruptamente, essencialmente com fins religiosos.

Os benefícios da hipnose foram usados por Hipócrates, pai da medicina, para anestesiar os seus pacientes.

O sábio, filósofo e médico iraniano do século XI (980 – 1037), Avicena aparece com grande destaque, em quase todas as grandes obras desta especialidade. Assim como Paracelsus do século XVI (1493 – 1541), pai da medicina hermética.

Mas é a partir da segunda metade do século XVIII, que se dá uma grande importância ao estudo da hipnose.

Foi nessa altura que o padre jesuíta Johann Joseph Gassner, ordenado sacerdote em 1750, se notabilizou pelas muitas curas que efetuou por intermédio das técnicas de hipnose. Explicava os seus métodos, para obter a aprovação da igreja, como se tratasse de exorcismos.

Rapidamente, dada a grande repercussão das atividades curativas do padre Gassner, a classe médica indignada tornou pública a sua revolta, afirmando que esta era uma prática irracional. Entre as várias comissões científicas criadas para investigar o trabalho do padre, a mais importante foi conduzida pelo médico Franz Anton Mesmer, cujas conclusões contribuíram para o impulso decisivo do hipnotismo atual.

O referido Mesmer (1734 – 1815) estudou filosofia, teologia, astrologia, parapsicologia e concluiu a sua formação em medicina, carreira que abandonou para se dedicar aquilo em que mais acreditava, as curas pelos métodos magnetizantes (uma grande parte dos Historiadores, está de acordo quando se afirma, que o início da história formal da hipnose, se deu em 1765 com os trabalhos de Mesmer sobre o magnetismo animal).

A sua fama alastrou-se por todo o mundo e ficou conhecido como Mesmer, o magnetizador. Esta notoriedade não podia passar despercebida às mais ilustres personalidades da medicina dessa época. Uma campanha difamatória e impiedosa obrigou-o a sair do país. Triste, por não poder aí exercer, procurou refúgio em Paris, cidade onde o “ mesmerismo ” passou a ser moda, com um êxito superior ao de Viana e Munique.

A aristocracia francesa era a sua principal clientela, incluindo o rei, que lhe pagava uma pensão anual. Tal como no seu país, este sucesso não podia passar despercebido. Foi criada, então, uma comissão composta pelas maiores sumidades da época, entre as quais figuravam o Dr. Lavoisier (criador da química moderna) e o Dr. Bailly (astrónomo de renome) que com o próprio rei Luís XVI, se negaram a assinar o relatório que condenavam as demonstrações mesméricas, alegando que havia algo de extraordinário, incompreensível e positivo nelas.

Mas, acaba por vencer a maioria que na época só dava crédito a fenómenos materialmente evidentes. Mesmer é desacreditado, acusado de charlatão e votado ao ostracismo. Foi só na sua velhice, que a Academia de Ciências de Paris apurou a veracidade das suas práticas hipnóticas. Cansado de lutar, declinou qualquer honraria e viveu o resto da sua vida como médico de província ate à sua morte em 1815. Contudo, ainda teve a satisfação de em vida, assistir à propagação das suas teorias que receberam o nome de “ Mesmerismo ”.

A seguir a Mesmer, na transição do século XVIII, várias personalidades se notabilizaram na investigação e desenvolvimento do hipnotismo, entre as quais se destaca o Marquês de Puységur (1751 – 1825), discípulo de Mesmer. Este tratou de não deixar cair no esquecimento o “ mesmerismo ” com a morte do seu fundador e descobriu o sonambulismo artificial.

O Abade Faria (1755 – 1810), de origem portuguesa, trava conhecimento com o Marquês de Puységur, evoluindo para a doutrina da sugestão e desmistificando os fenómenos hipnóticos, que na altura eram considerados sobrenaturais.

Alexandre Bertrand concluiu que o sonambulismo assenta nas leis da imaginação.

Em pleno século XIX, o médico cirurgião James Braid (1795 – 1860) foi o autor da palavra “Hipnotismo”, que deriva do vocábulo grego “hipnos” que significa sono. Propôs também o uso da auto-hipnose, considerando que a concentração era a chave do processo. Já no final da sua carreira, descobre que o sono não era necessário para produzir induções hipnóticas, pelo que a palavra “Hipnotismo” passava a não fazer sentido. Procura trocar o nome para “Monoideísmo” (tendência da atividade psíquica se concentrar em torno de uma só ideia, uma só sensação, uma só lembrança e/ou uma só imagem), no entanto, já não foi possível, pois a palavra já estava demasiado enraizada e divulgada.

James Esdaile, médico cirurgião inglês, fez várias cirurgias utilizando como anestesia técnicas hipnóticas.

Paris, no final do século XIX, foi a época das escolas, onde se ensinava e investigava a utilização da hipnose na terapia.

A “Escola de Nancy”, liderada por Ambroise Auguste Liébault (1823 – 1904), considerou o transe hipnótico um estado natural e não patológico (sendo denominado por muitos historiadores como pai do hipnotismo científico).

A “Escola de Salpêtrière” foi fundada por Jean Martin Charcot (1825 – 1893), médico e cientista francês, alcançou um grande reconhecimento na área da psiquiatria e neurologia na segunda metade do século XIX. Durante as suas investigações, Charcot conclui que a hipnose era um método que permitia tratar diversas perturbações mentais, em particular a histeria. Desenvolveu três conceitos que classificou como estágios da hipnose: a letargia, a catalepsia e o sonambulismo.

A “Escola Mental” foi criada por Hypolite Bernheim (1840 – 1919), um dos mais famosos médicos franceses, discípulo de Liébault. Ele confluiu para a ideia do carácter subjetivo dos fenómenos hipnóticos, tal como na necessidade de aprofundar as técnicas sugestivas. Contribuiu com o seu prestígio para o acolhimento, por parte da comunidade científica, das técnicas hipnóticas, usadas no controlo da saúde física e mental.

Ivan Pavlov (1849 – 1936), médico russo, foi o criador da indução reflexológica. Condenou o aspeto psicológico da hipnose dando relevo à fisiologia (capitulo da biologia que trata dos fenómenos vitais, isto é, estuda as funções dos diferentes órgãos dos seres vivos). Com esta sua confusão contribuiu para reforçar a predominância do aspeto psicológico na hipnose.

Émile Coué, médico francês, estudou na “Escola de Nancy” e abriu caminho ao uso da auto-sugestão. Concluiu também a lei da reversão dos efeitos “num conflito entre a vontade e a imaginação vence sempre, invariavelmente, a imaginação”.

Pierre Janet (1849 – 1947), psicólogo francês, estudou na “Escola de Salpêtrière” e foi aluno do professor Charcot. Definiu o transe como uma dissociação da mente e criou o termo subconsciente para diferenciá-lo do inconsciente. Foi pioneiro da hipnoterapia regressiva ao descobrir que as pessoas tinham a faculdade de reprimir das suas memórias episódios significativos da sua vida, ocorridos anteriormente. Através da hipnose podia ajudar as pessoas a recordarem-se desses eventos passados. Essas recordações podiam esconder incidentes traumáticos não digeridos e “isolados” da mente consciente, com repercussões disfuncionais no momento presente. Reconhece a importância da auto-compreensão, o primeiro estágio essencial, para se obter um resultado positivo nesta abordagem.

Sigmund Freud foi discípulo do médico austríaco Josef Brener, que desenvolvia um tratamento de casos de histeria por intermédio de hipnose, ao mesmo tempo que Charcot em Paris.

Freud estudou na “Escola de Salpêtrière” com o professor Charcot e continuou a colaborar com Brener até à elaboração da sua teoria sobre a sexualidade infantil. Fundou a “psicanálise”, que foi desde logo muito contestada, mas acabou por ser aceite universalmente pela comunidade científica. Até aí, fez uso extensivo da hipnose na investigação do subconsciente, compreendeu que a descoberta da raiz dos problemas era essencial para uma terapia bem sucedida.

Após o final da Segunda Guerra Mundial, a hipnoterapia surge em força no tratamento de traumas pós-guerra e surgem novas teorias.

Clark Leonard Hull professor de psicologia, em Yale, E.U.A., adepto da hipnose experimental, afirma que os fenómenos hipnóticos são uma resposta adquirida, igual aos hábitos (Teoria da Aprendizagem).

Ernest Simmel, psicanalista alemão, desenvolve a hipnoanálise.

André Muller Weitzenhoffer caracteriza o transe hipnótico como uma experiência psicológica natural.

Ernest Hillgard é um dos muitos estudiosos dos aspetos experimentais da hipnose.

Milton Hyland Erickson (1901 – 1980), psiquiatra e mestre em psicologia, reabilitou e modernizou a hipnose clássica e é considerado o pai da hipnose moderna.

Erickson nasceu a 15 de Dezembro de 1901, em Nevada, E.U.A. Filho de fazendeiros, teve poliomielite aos 17 anos e num estado terminal, pode ouvir o médico, dizer à sua mãe que seria impossível ele resistir até ao amanhecer. Indignado e revoltado, acreditou que se visse os primeiros alvores não morreria. Aguentou até ao nascer do sol e só então se entregou a um coma profundo, do qual só despertou uns dias depois. Livre da morte ficou paralisado numa cadeira de rodas, até experienciar mais uma vez, a sua força interior que acreditou tornar possível a sua recuperação.

Concluiu os seus estudos académicos em psiquiatria e psicologia em 1929. No exercício das suas funções apercebeu-se que os métodos terapêuticos da época eram na sua opinião, muito lentos e poucos eficientes. Interessa-se pela hipnose, segue de perto os trabalhos de investigação de Clark Hull e posteriormente desenvolve os seus próprios métodos e técnicas hipnoterapeuticas que designou de hipnoterapia naturalista.

Durante mais de 50 anos, desenvolveu extensos estudos e pesquisas, sobre vários conceitos para o uso e compreensão da hipnose, do ser humano e da sua mudança. Pouco escreveu sobre os seus trabalhos e preferiu que os seus alunos, mais experimentassem sua metodologia do que se prendessem à teoria.

Considerou que cada pessoa era uma pessoa, com experiências individuais diferentes, sendo difícil portanto, ser encaixada em terapias padronizadas preestabelecidas.

Erickson revelou-se a maior autoridade em hipnoterapia breve e estratégica do século XX. As suas intervenções rápidas, com excelentes resultados, foram algumas vezes difíceis de compreender.

Foi presidente fundador da American Society of Clinical Hypnosis e deixou como herança o contributo do seu trabalho, a Hipnoterapia Ericksoniana.

Atualmente, muitos outros profissionais espalhados um pouco por todo o mundo, rendidos à simplicidade, à unidade de propósitos, à eficácia e ao sucesso dos resultados obtidos, seguindo diferentes correntes, merecem também reconhecimento pelo trabalho que desenvolvem através das técnicas de hipnose.